Memórias póstumas de uma árvore sertaneja (intimista)
Aí começa sempre repentinamente e as pessoas sempre se perguntam se falta algo. É, na verdade tudo é meio incompleto. Mas não comecei isto aqui assim, comecei pelo início. Falta uma peça no jogo de uma vida aqui, falta uma vida numa vida acolá... E continua a indagação.Por que tão pessoas tão preocupadas com os “porquês”? Isso não traz nada de volta (e às vezes digo o que não creio). Não queiram saber de “porquês” póstumos. Mas que vale saber antes deles? Acho que também não pode impedir o destino que nunca cri.
Mas bem, se houver alguém nestes mundos, que tem algum apreço por mim, nada mais justo do que saber a verdade de minhas mãos, cabeça, cansaço, matutações e cheiros (e que depois de tudo eu ainda os tenha!). Se alguém lhe perguntar como vivi, diga que não sabia rimar, não sabia sentir nem amar, só sabia sofrer e fazer. Diga que não fui feliz. Diga que tinha sede de carne fresca, suculenta e saborosa, mas que só queria amor. Pode dizer, mesmo sem ter sabido, que eu só sabia escutar e sentir aromas! Fechava o nariz e continuava a queimar, como uma garota cocaína! Saiba que não fui feliz... Nem homem fui!
Mas se alguém lhe perguntar como morri, diga que foi de uma paixão crônica! Que eu já falei: Não fui homem! Não se morre de uma paixão; mas eu morri. Degenerativa e duradoura. Duradoura que me começou outra vida quando se instalou. Mas uma vida pequena para a realidade – imensurável para minha percepção. Em meses de paixão vivi mais que em anos de ócio de vida. Mas ela me comia de dentro pra fora, começando pelo coração, chegando ao ponto surreal de eu viver sem ele – sem sangue, sem amor, sem sensibilidade, e o crucial: com muita dor. Eu a tive no meu peito, eu a tive no seu peito... Eu a deixei ir porque quis.
Foi uma morte lenta e gradual, como se fosse um (re)nascimento com todos os enjôos de uma gestação, e toda a queda de cabelos (por minhas mãos), desalento, falta de força e coragem, como um câncer chorado!
Eu pensava acordado, dormindo e morrendo... Eu pensava nascendo, dormindo e pensando.
Eu sabia que poderia deixar a qualquer momento, como uma droga, como alguém que usa as portas da percepção (pensando que consegue voltar) e não sabe mais a direção da realidade. Mas como uma droga, fiquei viciado e quando conseguia deixar, sentia muita falta... De ar, de mar, de amor, de horror, de dor, de lágrimas salgadas e amarelas.
Aos poucos sucumbi, não agüentava mais, achei melhor.
Eu vaguei por entre os becos e prédios da cidade. Descobri que os cheiros não me deixarão nunca! Será que aquele tempo gasto esperando na portaria do edifício em frente a sua casa, só para vê-la, foi em vão?
Não posso mais escutar canções, agora só ouço sinos. Mas cada um deles me guarda uma lembrança/cheiro/momento. Se alguém quiser saber como foi, basta saber que morri de lembrar (ou de tentar parar).
Fiquei preso ao meu (seu) altar. Mas não foi culpa minha – não sei o que foi. Agora sou bem sincero!
Aqui durante anos, séculos, milênios, meses, dias, horas, minutos, momentos... Martirizando-me com velhas lembranças. O cheiro da carne podre, vermes e flores já se uniam num mesmo. Só uma fragrância continuava a arrancar meu coração, que nascia novamente todos os dias. Chamava-me e matava-me duas vezes ao dia: uma quando vinha e outra quando se ia. Uma maldição de Athena: condenado à dor eterna de ter apenas dois sentidos.
Só eu sou eterno. As pessoas morrem e eu torço que algum dia alguém morra, assim ela poderá passar ao menos perto da minha sepultura e acabar com minha abstinência... Pra começar de novo...
E sempre falta algo. Tudo é incompleto! Como vêem, (quase) tudo é incompleto. SINTAM!
Se lhe perguntarem de que morri, diga que não morri (ainda)...
Porque a esperança é tola.

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